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domingo, 12 de março de 2017
Os cães, os pátios da vida ou ‘Jornada vitalícia’
Texto e foto de Marcio de Almeida Bueno
Lembro de uma história em quadrinhos do Demolidor, da Marvel. Um menino cego perdia seu melhor amigo – um cachorro – e o herói tentava encontrá-lo. Obviamente o animal é capturado pela ‘carrocinha’ e vai parar em um CCZ para ser eutanasiado. O veterinário ainda comenta sobre “essa bela coleira” antes de dar a injeção fatal. Com os sentidos ultra apurados, o Demolidor passa mal ao entrar no local, tarde demais, pelo cheiro de morte. Fecha parênteses.
Então hoje eu vi uma pessoa conduzindo um enorme cachorro da raça Golden Retriever – é considerado atualmente o top do ranking de ‘cachorro para a família’ – de dentro de um furgão para uma pet shop, aqui perto de casa. O cão estava faceiro, procurando as novidades com o nariz, arrastando quem lhe conduziria pela coleira. E aí fiquei pensando na confiança total que ele tinha nos humanos. Feliz, onde quer que o levassem, como uma criança. E as crianças precisam ser protegidas, neste nosso mundo de espinhos.
Lembro de um cachorrinho famoso na cidade onde morei em parte da infância e pré-adolescência. Ele costumava pegar pacotes de biscoito em supermercados e levá-los para a fêmea e ninhada. Todos o conheciam. Então eu estava na escadaria do meu colégio, fora do horário de aula, e apareceu esse cachorro. Um colega pegou um tijolo e aprontou o arremesso, enquanto chamava o animal pelo nome, de uma forma ardilosamente carinhosa. Ele ia se aproximando. A cena era forte, prenunciando o que viria a acontecer. Eu não lembro o que veio a seguir, se deixei o local, se impedi, se assisti impotente. Apaguei mesmo, deste meu HD cerebral com bug de B12.
Uma confiança extrema do não-humano no humano. Tal é a coisa, que alguns cães ficam ‘bobos’, independente do porte, outros são sempre agressivos, independente do porte. Como se tivessem uma missão a cumprir, e é preciso fazer bonito para seus ‘donos’. Tem uma garagem em Porto Alegre com um pastor alemão enorme, que se joga com tanta força contra a grade quando algum passante se aproxima demais, que instalaram uma rede de metal. O susto é garantido. Ele passa o dia trombando na tal grade, preso à condição de equipamento-de-segurança-doméstica, bastando água e comida uma vez por dia.
“Veja bem, meu patrão / como pode ser bom / você trabalharia no Sol / e eu tomando banho de mar”, canta Milton Nascimento em ‘Caxangá’.
E nas construções, terrenos vazios e pátios da vida, os cachorros batem continência, batem ponto, e cumprem sua jornada vitalícia.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
O que aprendi em um dia conversando com centenas de pessoas sobre veganismo
por Rodrigo Nery
Domingo vivi uma experiência incrível: fui à rua para um protesto de conscientização da população sobre veganismo junto à ONG Vanguarda Abolicionista.
Com alguns panfletos em mãos, eu abordava as pessoas que já estavam paradas tentando decifrar o significado da vaca, dentro de um caixão, sendo velada. Ouvi cochichos que iam de “Mas que coisa de mal gosto” até “Papai, isso é de verdade?”.
Conversei com senhorinhas de cabelos grisalhos, dono de frigorífico, vegetarianos, gaudérios pilchados, crianças, famílias inteiras e um homem em especial, cuja sua autodefinição foi: “sou espécie rara: carnívoro e hétero”.
Tirando casos de estupidez, entendo que o assunto do veganismo pode despertar desconfiança nas pessoas, deixando-as na defensiva. Como em um levantar de escudos, ouvi repetidamente todos os jargões em defesa à carne que eu mesmo um dia repeti.
E se você, que está lendo isso, justifica seu consumo de carne com algum dos motivos abaixo, é provável que você também esteja na defensiva.
/ O homem só evoluiu por causa da carne / As plantas também sentem dor / Fonte de proteína / Topo da cadeia alimentar / Os leões também matam / A natureza é assim / Está na bíblia / Essa é a função dos bichos / Evitar superpopulação de vacas / É tradição / A carne é minha, eu comprei / Cresci matando galinha / Conheço um pequeno produtor que ama os animais / Não comer carne é radical /
Como disse, eu também repetia essas palavras. Conheço bem este lado. Até porque, a maioria de nós não nasce vegano. Somos trazidos a um mundo que ignora o holocausto diário que fazemos a milhões de animais em troca de 10 minutos de prazer ao prato. Um sapato estiloso. Um show de adestramento.
O único argumento que esperava ouvir neste dia, e que aceitaria com direito a aperto de mãos, é "eu gosto de carne, fodam-se os animais”. Mas a este nível de objetividade, ninguém chegou.
Mas porque alguns ficam na defensiva?
A resposta é óbvia. Sabemos que carne é, inevitavelmente, morte. Uma ovelha pode ter sessões de yoga e fazer 6 refeições por dia. Isso não interfere no fato de que, ainda sim, ela será degolada. E a morte de um animal não é menor do que a morte de um humano. Uma faca no pescoço dela queima exatamente na mesma intensidade do que no nosso. Quando analisamos no nível da dor, agonia, preferência à vida e ao prazer, nós somos todos iguais.
Em contrapartida, o veganismo apresenta-se como paz. Paz absoluta para com os animais, sejam eles os sortudos animais pet ou os azarados animais comida.
Veganismo nunca poderá ser radical. Abraçar uma vaca não é radical. Queima-la com ferro quente, sim. Brincar com um coelho não é radical. Arrancar sua pele, sim.
Ao final do dia, fui recompensado em conhecer pessoas que decidiram salvar vidas, dispostas a mudar alguns poucos hábitos de consumo do seu dia a dia para se alinhar a uma postura ética correta.
Domingo vivi uma experiência incrível: fui à rua para um protesto de conscientização da população sobre veganismo junto à ONG Vanguarda Abolicionista.
Com alguns panfletos em mãos, eu abordava as pessoas que já estavam paradas tentando decifrar o significado da vaca, dentro de um caixão, sendo velada. Ouvi cochichos que iam de “Mas que coisa de mal gosto” até “Papai, isso é de verdade?”.
Conversei com senhorinhas de cabelos grisalhos, dono de frigorífico, vegetarianos, gaudérios pilchados, crianças, famílias inteiras e um homem em especial, cuja sua autodefinição foi: “sou espécie rara: carnívoro e hétero”.
Tirando casos de estupidez, entendo que o assunto do veganismo pode despertar desconfiança nas pessoas, deixando-as na defensiva. Como em um levantar de escudos, ouvi repetidamente todos os jargões em defesa à carne que eu mesmo um dia repeti.
E se você, que está lendo isso, justifica seu consumo de carne com algum dos motivos abaixo, é provável que você também esteja na defensiva.
/ O homem só evoluiu por causa da carne / As plantas também sentem dor / Fonte de proteína / Topo da cadeia alimentar / Os leões também matam / A natureza é assim / Está na bíblia / Essa é a função dos bichos / Evitar superpopulação de vacas / É tradição / A carne é minha, eu comprei / Cresci matando galinha / Conheço um pequeno produtor que ama os animais / Não comer carne é radical /
Como disse, eu também repetia essas palavras. Conheço bem este lado. Até porque, a maioria de nós não nasce vegano. Somos trazidos a um mundo que ignora o holocausto diário que fazemos a milhões de animais em troca de 10 minutos de prazer ao prato. Um sapato estiloso. Um show de adestramento.
O único argumento que esperava ouvir neste dia, e que aceitaria com direito a aperto de mãos, é "eu gosto de carne, fodam-se os animais”. Mas a este nível de objetividade, ninguém chegou.
Mas porque alguns ficam na defensiva?
A resposta é óbvia. Sabemos que carne é, inevitavelmente, morte. Uma ovelha pode ter sessões de yoga e fazer 6 refeições por dia. Isso não interfere no fato de que, ainda sim, ela será degolada. E a morte de um animal não é menor do que a morte de um humano. Uma faca no pescoço dela queima exatamente na mesma intensidade do que no nosso. Quando analisamos no nível da dor, agonia, preferência à vida e ao prazer, nós somos todos iguais.
Em contrapartida, o veganismo apresenta-se como paz. Paz absoluta para com os animais, sejam eles os sortudos animais pet ou os azarados animais comida.
Veganismo nunca poderá ser radical. Abraçar uma vaca não é radical. Queima-la com ferro quente, sim. Brincar com um coelho não é radical. Arrancar sua pele, sim.
Ao final do dia, fui recompensado em conhecer pessoas que decidiram salvar vidas, dispostas a mudar alguns poucos hábitos de consumo do seu dia a dia para se alinhar a uma postura ética correta.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Brigitte Bardot, animais e o ataque contra o feminino
por Ellen Augusta Valer de Freitas
Uma propaganda ultrajante fez uma comparação entre Brigitte Bardot e Sophia Loren. O anúncio de uma clínica de rejuvenescimento pretendia comparar o envelhecimento cronológico das duas mulheres. O cinismo causou-me náuseas, pois além de ofensivo é uma propaganda enganosa sob dois aspectos.
O primeiro é o fato
de que a clínica apenas oferece paliativos e não cirurgia, e nas fotos
insinua-se que entre as duas mulheres há a diferença no envelhecimento
natural sem 'cuidados', quando a realidade é que uma delas realizou
plásticas e a outra não. O segundo, e é o que me interessa aqui, é a
desinformação dos autores de tal publicidade e das pessoas em geral,
sobretudo mulheres, as maiores interessadas.
Brigitte Bardot é uma atriz famosa por sua beleza, conhecida também por investir toda sua vida nos animais. Em uma de suas frases, ela afirma nunca ter feito plásticas, pois preferia que esse dinheiro fosse para eles. E, para tal, hoje ela comanda um instituto com seu nome.
A empresa daqui que se utilizou de sua imagem compara uma BB sem plástica com uma SL que realizou leves alterações plásticas. E faz supor aos ingênuos que tudo isso são 'cuidados' que uma das mulheres dedicou à aparência, que a outra, uma descuidada, relaxada, desdenhou - mas não declara que tipo de cuidados. Uma insinuação que fere as duas mulheres e deixa uma sensação incômoda a todas as demais. Não basta usar as imagens delas sem sua autorização, supõe-se, mas ainda precisavam denegri-las.
Essa falta de respeito para com uma mulher importante para a causa animal é também o reflexo sutil do desconhecimento de muitas mulheres sobre os feitos de suas companheiras. E quando uma mulher faz algo na causa, muitas são as mãos machistas que se levantam para criticar.
Quando uma deputada faz uma lei, quantas mulheres levantam defeitos só porque 'não vão com a cara' dela ? Quando uma mulher da causa se destaca, quantas mulheres lhe dão apoio? Quantas mulheres veganas estão no poder? Onde lhes damos as mãos?
E onde estão as 'feministas'? Pois quando publicamos um pio sobre qualquer coisa, elas já vem nos tachar de machistas, sexistas - mas lá na rua, desconhecem esse tipo de campanha? Observei atentamente o comportamento das mulheres este ano em momentos distintos quando expoentes femininas na política se manifestaram publicamente em favor dos direitos animais, e a reação de outras mulheres sempre com teorias A ou B, palavras acusatórias, imposições.
Tudo precisa ser perfeito, quando se trata de uma mulher. Quando a mesma lei ou feito é realizado por um homem, o alvoroço é menor. O ódio e indiferença destilado à outra é contra si mesma.
Brigitte Bardot é uma atriz famosa por sua beleza, conhecida também por investir toda sua vida nos animais. Em uma de suas frases, ela afirma nunca ter feito plásticas, pois preferia que esse dinheiro fosse para eles. E, para tal, hoje ela comanda um instituto com seu nome.
A empresa daqui que se utilizou de sua imagem compara uma BB sem plástica com uma SL que realizou leves alterações plásticas. E faz supor aos ingênuos que tudo isso são 'cuidados' que uma das mulheres dedicou à aparência, que a outra, uma descuidada, relaxada, desdenhou - mas não declara que tipo de cuidados. Uma insinuação que fere as duas mulheres e deixa uma sensação incômoda a todas as demais. Não basta usar as imagens delas sem sua autorização, supõe-se, mas ainda precisavam denegri-las.
Essa falta de respeito para com uma mulher importante para a causa animal é também o reflexo sutil do desconhecimento de muitas mulheres sobre os feitos de suas companheiras. E quando uma mulher faz algo na causa, muitas são as mãos machistas que se levantam para criticar.
Quando uma deputada faz uma lei, quantas mulheres levantam defeitos só porque 'não vão com a cara' dela ? Quando uma mulher da causa se destaca, quantas mulheres lhe dão apoio? Quantas mulheres veganas estão no poder? Onde lhes damos as mãos?
E onde estão as 'feministas'? Pois quando publicamos um pio sobre qualquer coisa, elas já vem nos tachar de machistas, sexistas - mas lá na rua, desconhecem esse tipo de campanha? Observei atentamente o comportamento das mulheres este ano em momentos distintos quando expoentes femininas na política se manifestaram publicamente em favor dos direitos animais, e a reação de outras mulheres sempre com teorias A ou B, palavras acusatórias, imposições.
Tudo precisa ser perfeito, quando se trata de uma mulher. Quando a mesma lei ou feito é realizado por um homem, o alvoroço é menor. O ódio e indiferença destilado à outra é contra si mesma.
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